Na 22ª edição da SP-Arte, em São Paulo, a revista Philos convidou a crítica e curadora Bianca Dias para compartilhar um olhar atento e sensível sobre alguns dos destaques da feira. A partir de um percurso que atravessa diferentes linguagens, gerações e territórios, sua seleção revela não apenas a potência de nomes já consolidados, mas também a força de artistas e projetos que tensionam e renovam o campo da arte contemporânea. Entre descobertas recentes, reencontros marcantes e diálogos imprevistos, Bianca constrói um panorama que reflete a vitalidade e a complexidade da cena apresentada nesta edição.
Sem mais delongas, apresentamos um passeio pela SP-Arte com a curadora:
Antes de mais nada, quero dizer do impacto que tive ao ver reunidos no estande do Solar dos Abacaxis um artista que conheci faz pouco tempo, mas revirou tudo o que eu pensava sobre o espaço pictórico: Luiz Paulino, ou Bizil, cumpriu pena no Carandiru entre 1996 e 2000 e sobreviveu ao massacre do Carandiru. Suas obras, com força política estrondosa, num espaço de arte que une ação social e diálogos imprevistos, são certamente um acontecimento dentro da SP-Arte.
Agora vai uma dúzia de outras preciosidades entre tantas na feira, que vai até domingo:
#1 Ayrson Heráclito na baiana Paulo Darzé Galeria: montagem deslumbrante com trabalhos desse artista baiano, que sempre reafirma que é preciso “exorcizar os fantasmas da sociedade colonial” que ainda nos assombram. Trabalho que inclui esculturas, performances, fotografias que articulam arte e religiosidade, misturando elementos da cultura baiana.

#2 As joias belíssimas circunscritas dentro dos estandes de arte, explodindo hierarquias. No “Ateliers Hugo”, temos Jean Arp, Jean Cocteau, Salvador Dalí, André Derain, Max Ernst, Pablo Picasso e Dorothea Tanning.
#3 Ainda dentro do campo da joalheria e arte, temos o trabalho meticuloso do pesquisador, colecionador e galerista Rafael Moraes, que, além de ser um estudioso das joias de crioula, nos apresenta também um incrível acervo de peças desenhadas por Burle Marx. São joias históricas e modernistas de tirar o fôlego.
#4 Todo o estande precioso da Galeria Marco Zero, de Recife, que se destaca por um trabalho muito sofisticado, com uma curadoria fina dentro da feira. Destaque para as jovens e brilhantes artistas Rayana Rayo e Juliana Lapa.
#5 Galeria Leonardo Leal, de Fortaleza, que me apresentou, ao longo dos últimos anos, alguns artistas jovens de talento fora da curva, como Gustavo Diógenes, Artur Bombonato e Júlia Aragão. Todos encarnam, de formas distintas, uma presença mística e mágica sertaneja.
#6 Albuquerque Contemporânea, com os trabalhos epifânicos de Mateus Moreira, um dos jovens pintores mais brilhantes que já conheci.
#7 Rodrigo Mitre, com um nível de experimentação curatorial dentro de uma feira que impressiona. Corajosa montagem, com artistas que se deslocam do cânone e nos trazem outras perspectivas.

#8 Cave, de Fortaleza, com Galeria Estação, com projeto de curadoria de Lucas Lacerda, com Navegante Tremembé, artista indígena, com trabalhos poéticos feitos com pigmentos naturais. A dobradinha entre galerias ficou muito interessante, pois coloca em diálogo territórios e trabalhos distintos a partir de uma perspectiva nova.
#9 Número, de Recife: impecável trabalho com séries interessantes e com o trabalho de Iza do Amparo revelando a teia cromática de Recife e uma geometria própria. A cor e o ritmo do estande evocam a geometria do frevo.

#10 Claraboia: um espaço interessante, com artistas jovens que eu não conhecia, cumprindo também um papel institucional interessante de revelar outras formas de atuação: mais múltiplas e arejadas.
#11 Cassia Bomeny: com o apaixonante trabalho de Bea Machado, ancorado em uma iconografia popular e periférica, e Fabiana Kallás, com um trabalho bastante rigoroso de pintura no corpo a corpo da presença da tinta.
#12 A própria Galeria Estação, que, com seu trabalho pioneiro na representação de artistas populares, consegue sempre arejar tudo com novos artistas, como é o caso das pinturas de Rafael Pereira, criando um campo vivo e pulsátil entre mestres consagrados e o que ainda se desenha de novo.
Bianca Coutinho Dias é ensaísta, psicanalista, pesquisadora, crítica de arte e curadora. Especialista em História da arte pela FAAP, mestre em estudos contemporâneos das artes pela Universidade Federal Fluminense, doutoranda em memória social na UNI- RIO. Escreve sobre artes plásticas, cinema, literatura, psicanálise e sobre tudo mais que pode movimentar e reinventar o mundo.